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No dia 3 de setembro de 2020, meu pai, Rubens Bonetti, foi sepultado as 11 horas. Estávamos todos anestesiados por uma morfina emocional, incrédulos por não poder mais conviver com nosso amado pai.

Era 7h:50 quando um dos amigos mais importante na minha vida, Sebastião Galinari escreveu as palavras mais generosas e sensíveis que revelavam o quanto ele conhecia a minha dor:

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Hoje o dia não deveria amanhecer.

 O sol poderia ficar lá do outro lado sem mostrar tanto brilho e tanta luz. Hoje não deveria ter barulho, ter conversa, nem pássaros cantantes, não deveria ter sorrisos e toda alegria poderia ser varrida da face da terra.

Hoje deveria ser amanhã e amanhã, ser a semana que vem, hoje nem futuro deveria ter.

Seu Bonetti, que a vida lhe deu, lhe deu seu nome, lhe deu irmãos e muitas histórias.

Seu Bonetti que a vida lhe deu, encheu de carinho sua infância, encheu de amor os seus dias e todas suas casas por onde você passou.

Deu lhe gosto pelo belo e pela fotografia, deu lhe história.

Seu Bonetti que a vida lhe deu, doravante continuará existindo neste mundo, toda vez que despertar uma lembrança dele, todas as vezes que pronunciamos seu nome, que vermos suas fotos ou que pronunciamos seu nome, que contarmos uma história dele e o inserirmos em nossos dias e momentos e toda vez que rirmos de suas graças.

Ele se foi mas suas marcas, suas histórias, suas coleções, seu legado enfim, permitirá que ao seu lado sempre esteja.

Se hoje é dia de dor saiba que ela passa e transformada em saudade restará o consolo que o tempo, no devido tempo, trará.

Claro que o mundo ficou mais triste e mais vazio.

Claro que o mundo nunca será mais o mesmo.

Toda dor de agora vai passar e enquanto isso exerça o amor, exercite o amor, abrace sua mãe e lhe dê seu colo seu carinho e sua companhia. Deixe o tempo passar, promova todos os rituais dessa passagem que inclui os abraços, o velório, as lágrimas, os funerais a missa de sétimo dia.

Se o mundo não parou e o sol veio brilhar, deixe neste momento o seu mundo parado e busque na penumbra de seus pensamentos a força necessária para tocar sua vida para frente.

Seu Bonetti teve uma vida linda, longa e feliz. Viveu com podia e viveu como queria.

Ele Foi feliz e teve seu amor e seu carinho e sua presença por mais de 60 anos na vida dele. Viva neste momento a sua dor, pois nada a aplacará e conte com o tempo que tudo transforma e transformará essa dor numa saudade eterna, porém serena.

Seu amigo, para sempre: Sebastião Galinari”. 

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Como definição podemos dizer que a Poesia é a manifestação harmônica, estruturada com beleza estética retratada pelo poeta através das palavras. Mas...
Poesia é abrir o coração para deixar-se contaminar por sentimentos que despertam nosso lado bom. É abrir-se para a liberdade de inspiração que encanta e que nos transforma em seres melhores.
Poesia é olhar ao redor e procurar decifrar as cores e sua magia...
Poesia é enxergar as mínimas ações que contribuem para fazer o dia do outro, seu próximo, um pouco melhor...
Poesia é pensar positivo e conseguir transmitir ao amigo que tem aquela doença ruim toda energia magnífica que transforma. É conseguir plantar dentro do outro a semente que germina a esperança e que cura.
Poesia é olhar seu semelhante como igual, mesmo acreditando que uns são mais iguais que outros.
Poesia é estabelecer meta e voltar-se para mudar o circulo vicioso do mal.
Poesia é tirar para dançar todos os dias os bons valores morais. É valsar com dignidade tendo como par a ética.
Poesia é assinar acordo íntimo para exercitar as verdadeiras virtudes. Exercitar a bondade, a generosidade e principalmente a compaixão.

 

 

Não me dei conta quando foi que comecei a perceber que crescia a consciência analítica, a crítica, o desgosto e o desespero de fazer parte dessa espécie da qual me envergonho de pertencer.
Cresce dentro do meu peito o tumor da impotência. Nada posso fazer nesse redemoinho de safadezas, ladroagens, bandidagens e corrupção. Somos obrigados a assistir todos os dias, novas denuncias manobras descaradas que nos fazem expectadores mediocremente impotentes.
Visualizo o Brasil deficiente, manco, caótico, podre e fétido pela contaminação dos brasileiros que deturparam a moral, a ética, os bons exemplos.
O básico e essencial é que qualquer ser humano tivesse atitudes descentes de ética para não fazer nada que prejudicasse seu semelhante.
Isso não é piada.
Vivemos hoje em um Brasil onde atitudes honestas são vistas como sinal de idiotice. Como pode alguém encontrar uma carteira com dinheiro e ir procurar o dono para devolver? Só pode ser otário. É assim o pensamento do brasileiro em geral. Todos com a cultura de levar vantagem de qualquer forma, em atitudes ou em pequenos delitos. Quando alguém fala que vai entrar para política, logo pensamos: - mais um para se alimentar do sistema falido.
O tumor da impotência cresce no coração de muitos. Mas, não existe quimioterapia da honestidade suficiente para mudar esse circulo vicioso, onde o fio de bigode é apenas uma expressão que ficou no passado, a palavra necessita ser documentada, registrada com assinaturas e firmas reconhecidas.
Os homens no poder não conseguem fazer a diferença. O egoísmo impera, prospera, catalisa e agrega homens com má vontade de ajudar o povo. Só pensam em ajudar o bolso. E bobo da corte é aquele que luta contra princípios mínimos de honestidade. Como pode um político não ter a hombridade de pensar que tirar do povo é tirar da boca da criança o leite, o pão, a educação, o atendimento mínimo necessário quando esta doente e depende do serviço público.
Até quando meu Deus, assistiremos a desgraça humana sendo usada hipocritamente como plataforma política com promessas de mudanças, na saúde, educação e moradia.
Acredito que a diferença aconteceria se os que nos dirigem, nos “conduzem” tivessem a capacidade mínima de se colocar no lugar de um desgraçado infeliz que não tem um teto que lhe dê segurança, não tem assistência médica quando chora na fila de um hospital que não tem médico, remédios ou leitos disponíveis para sanar sua dor.
Precisamos de bons exemplos que venham de cima. Precisamos de políticos que honrem suas calças, que exercitem a boa vontade, que comecem a contaminar seus pares e semelhantes com o vírus da HONESTIDADE. Só assim construiremos um BRASIL melhor.

 

 

 

Este lugar é todo nosso.
Seu olhar atravessa a multidão e ele busca minha permissão.
Como toque de magia a musica começa.
Meu vestido é claro, longo, o tecido fino e esvoaçante.
Sua postura lembra um príncipe dinamarquês.
Ele está lindo em sua casaca impecavelmente preta.
Conduzida para felicidade no balanço característico, os passos vão impulsionando a criatividade e a sensibilidade em traçados poéticos e jogos de sedução.
Elegantemente sua mão envolve minha cintura e eu flutuo pelo salão.
Valorizamos o compasso, e, nossos braços se alongavam numa habilidade e coreografia onde a percepção e a leveza afloraram deliciosamente por todos os poros.
A valsa, o salão, você e eu. Nada mais é necessário.
Leve é o tempo que teimoso se faz de esquecido e a todo instante se repete.
A música não tem fim.
Não existe cansaço, somente entrega.
Somos um só a todo instante.
Seu coração pulsa em minha mão.
Meu coração rodopia o salão.
Estamos vivos e capazes.
Podemos arriscar tomar o leme, enfrentar a preciosa tempestade que grita impiedosa.
De repente vem o desespero e o medo.
Estou assustada e sinto que não existe mais nenhuma alternativa.
Completamente impulsionada pela intuição, emocionada, não consigo acreditar que não resta solução.
Infelizmente.. ah, infelizmente aos prantos, simplesmente acordei.

Dia 24 de Janeiro de 2010, a principal artéria de um coração pulsante batizado de AVENIDA PAULISTA, ficou totalmente obstruída pelo egocentrismo obtuso de um partido que dentro de uma congregação de representações políticas, diz ser o mais jovem e o que mais cresce. Se galga tantos degraus tão rapidamente, visualizo o cenário surrealista digno de Salvador Dali, onde cabeças de intelectuais, memórias que deveriam ser preservadas, histórias que deveriam estar marcadas a ferro quente, servem de suporte para ascensão tão proclamada.
Uma luta inglória, de impotência diante das manobras de politicagens, de conchavos de interesses, da ambição e exibicionismo chulo de homens que deveriam honrar pelo menos suas indumentárias íntimas. Homens que deveriam representar o povo, mas que “narcisistas” só possuem olhos para seus próprios umbigos.
Desde abril de 2008, quando o atual prefeito decretou de forma tão desajuizada e arbitrária o nome do Parque Mário Covas, em plena Avenida Paulista, 1853, usurpando a própria incompetência, pois sua própria prefeitura numa Lei de n. 77, registrando muito claramente ao escrito que é de bom senso preservar a memória de um logradouro quando existe a necessidade de colocar um nome... Pecou.
Após a inauguração do parque as 11h00min horas de uma manhã ensolarada, fizemos uma manifestação silenciosa em protesto a esse evento tão arbitrário aos conceitos em se tratando da preservação de um passado tão prestimoso a São Paulo, quanto foi a contribuição cultural que René Thiollier deu a essa cidade. Uma São Paulo que ele tanto amou que lhe cuspiu á cara a “La Judas”, tripudiando suas contribuições culturais, que não foram poucas, em detrimento de homenagear um político que nem paulistano era.
Terminada a inauguração e o protesto, São Paulo chorou torrencialmente por quase uma hora, inconsolada pela obstrução dessa artéria em seu coração Paulistano.
Dizem que já é obtido, e já se faz luto. Mas ainda acredito na ultima instância que alguns chamam de U.T.I – Ultima Tentativa de indignação. Essa U.T.I esta calcada no Projeto de Lei 434/08 aprovada pela primeira Comissão de Justiça como LEGAL E CONSTITUCIONAL.
Temos que se ter esperança de que injustiças sejam corrigidas a tempo, porque senão estaremos fadados a falência de muitas artérias que pulsam o coração dessa metrópole que corre o risco de óbito absoluto por falta de memória ou de história.

 

 

di e nazareth

Minha querida amiga, hoje, meu choro é de saudade. Você partiu exatamente há um ano, no dia 3/3/2010.
Lembro da nossa convivência semanal durante cinco longos anos, maravilhosos, em que tenho certeza a fez muito feliz, pois sentia a vibração da sua voz e o brilho dos seus olhos.
Ainda hoje, quando meu celular toca quando estou dirigindo, tenho a nítida sensação de que vou atender e ouvir a sua voz perguntando: “- Di Bonnê, você já está vindo? Já está chegando?”.
Neta de francês, você nunca conseguiu me chamar de Di Bonetti, e eu não me importava, pois sabia que no fundo você queria que sangue francês corresse por minhas veias, em vez do italiano.
Nossa amizade foi tão profunda, eu a amei tanto, tentei cuidar tanto de você, que esperava que você vivesse mais 10 anos.
Hoje choro a sua partida, tanto, ou mais quando a acompanhei para a sua morada eterna no cemitério da Consolação.
Meu coração sofre com sua ausência, como sei que sofrerei se um dia minha amada mãe partir primeiro que eu.
Nazareth, você era uma extensão da minha vida, um pedaço da minha existência. Nossa afinidade era tão precisa e sincera que se torna difícil explicar aos outros o laço de carinho que nos unia.
Nunca existiu essa diferença de 40 anos de idade entre nós, falávamos a mesma língua. Sua experiência de vida fez-lhe mestra em administrar conflitos. A sabedoria fazia parte do seu dia a dia. Sabia acomodar situações familiares como Julio Medaglia conduz a sua batuta, com maestria.
Você perdeu uma filha, sua primogênita, e partilhei muitas vezes a sua dor. Você sempre me dizia que ela, poetisa, havia feito uma poesia chamada 7 de 7 de 77. Foi exatamente esse o dia da sua partida, 7 de julho de l977.
Até o trem surgir detrás das montanhas e parar na estação da minha vida, como cantava Raulzito, para me levar, lembrarei do dia 3/3/2010 que somando o ano 2010 também é igual a três.
Lições importantes foram se acumulando, convivendo tanto tempo de frente para você, naquela pequena mesa de escritório, rememorando o passado, remexendo em fotografias e em documentos que nos levavam a descobertas que partilhávamos com imensa felicidade. Ninguém seria capaz de entender tanta cumplicidade, tanto carinho vivenciado. Presenciei inúmeras vezes o “jogo do contente” que com prudência e sensatez manipulava para harmonia e serenidade dos que a cercavam e conviviam.
Parece que ouço sua voz a dizer: - Papai sempre dizia que calar é ouro, falar é prata.
Ninguém sabia quantos já havia socorrido, pois você herdou a benevolência dos Castros e a generosidade do sangue Thiollier.
Sempre na discrição repetia que o que a mão direita fazia não tinha a mão esquerda que tomar conhecimento.
Espero, onde estiver, esteja bem e tranqüila, pois a uma pessoa como você, só posso imaginar o amparo dos anjos, a luz da paz e o reencontro feliz com os quais se foram e você sempre falava com tanta saudade.
Ter sido agraciada com sua convivência foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida, e só tenho a agradecer a você minha amiga, onde estiver, que esteja protegida pelo mesmo amor e carinho que a tantos dedicou neste mundo terrestre.
Sinto sua falta, sinto saudades e sentirei sempre, pois você foi um pedaço que arrancaram violentamente do meu coração.
Ainda não me conformei por não ter cumprido a promessa que me fez repetidas vezes que não me abandonaria até lançarmos o livro sobre seu pai.
Hoje choro minha saudade, querida e amada amiga Nazareth.
“Pai nosso, que estais no céu... Santificado seja o vosso nome... venha a nós o vosso reino...”
Espero que esteja protegida e feliz, onde estiver.

 

Carlinhos casamento

Cheguei sozinha ao salão de festas no Itaim. Entrei no Villa Vérico procurando por rostos conhecidos, mas, cheguei a acreditar que estava no casamento errado. Não conhecia ninguém.

O local estava lotado. Cadeiras brancas enfileiradas se abriam num corredor quase todas ocupadas. Muitas pessoas em pé. Atrás das cadeiras, uma escadaria levava ao mezanino aberto. Lá estavam concentrados os padrinhos e noivos.

Enorme guirlanda de margaridas pequenas pendia do teto, com pé direito bem alto, em cima de uma maravilhosa e comprida mesa decorada com dois longos castiçais rodeada por seis velas com proteção de vidro. Dois vasos brancos robustos com flores brancas e outros dois com copos de leite brancos e amarelos. Essa mesa era mesmo um show á parte que se harmonizava por uma parede de vidro que separava o salão da sala dos fumantes. Mas não estou falando de uma sala dos fumantes qualquer. Aquela é a sala de fumante mais gloriosa que já ousei acender um cigarro. Muito bem projetada. Uma cascata acompanhava toda a parede num recorte cubista com madeiras que davam ao movimento das águas, um toque surreal. Uma mesinha de ferro ao canto com duas cadeirinhas convidavam para um papo. E foi o que fizeram os pais dos noivos para consolidar a união dos filhos e famílias.

Do lado esquerdo, um “Quinteto”. Três violinos, um violoncelo e um teclado fizeram as emoções aflorarem a pele.

Uma voz feminina, doce e firme anuncia a cerimônia. Descem a escadaria e rompem o corredor dois casais para cada noivo sendo que um casal de cada noivo são os respectivos irmãos com suas esposas. Entremeiam a cada casal que desfila seis moças lindas, vestidas de branco, carregado copos de leite. São três amigas de cada noivo, que ali representam a pureza daquela cerimônia.

Uma daminha de honra, graciosa, com cora de princesa, encanta a todos.

Os pais de Darwin, de mãos dadas com o noivo, entram emocionados para levar até aquele altar simbólico, o filho amado. Beijos, abraços, afagos e lágrimas selam a emoção.

Em seguida, os pais do segundo noivo, Carlos Augusto, meu primo amado, descem os degraus e levam até o Darwin, o filho especial que acarinham em lagrimas. Abraços longos e abençoados.

Tia “Loló”, Paulina Bonetti, irmã do meu Avô Alexandre, entra com seu vestido rosa antigo, aos 87 anos, delicada, mas de sorriso largo e feliz, apoiada pela filha Maga. Tia Loló carrega o signo, elo perfeito que sedimentará a união. As alianças.

Sob fundo musical, uma moça esguia, com porte de bailarina russa, vestido azul cobalto, de posse do microfone, voz mansa, traduz em palavras o ritual das velas, onde o relacionamento no futuro, nos instantes em que o amor adormecer, terá a chama da vela para colorir a opacidade do olhar. Nesse instante mágico, os pais com velas acesas, acendem a vela dos filhos para selar o brilho da união. A troca das alianças envolve os presentes numa magia. Difícil fugir as lágrimas.

Carlos Augusto ao som dos violinos “Como é grande o meu amor por você”, faz uma linda declaração da importância da união. Darwin chora emocionado. Carlos coloca a aliança no amado.

Nesse momento, todos caem na gargalhada. Coisas do mundo moderno de tecnologias, pois Darwin saca do bolso o celular para ler seu discurso de amor.

“Uma colinha é sempre mais fácil, ele é bom no improviso, eu sou bom no planejamento, diz ele. Enquanto eu já escolhi o que vou vestir no natal, Carlos nem sabe o que usará amanhã. Somos opostos e iguais. Fogo que queima e arde, mas que também aquece e transforma. O fato é que essas diferenças nos complementam e nos unem, diz Darwin. Amo a sua alegria, a sua energia e seu entusiasmo. E como diz Drummond, se amar se aprende amando, quero te amar a cada dia. Vem ser meu marido”.

A moça do vestido azul cobalto, fecha a cerimônia relatando o dia e qual o cartório que registrou o casamento civil.

Emocionados, Carlos Augusto aguarda enquanto Darwin recebe os cumprimentos da Márcia e Márcio, seus sogros, cunhados, padrinhos e madrinhas. Beijos, abraços e muitas lágrimas de felicidade.

Após os cumprimentos, erguem se as cortinas laterais e um salão quadrado, enorme, com o mesmo pé direito de metros e metros, abrilhanta um palco com “Dj”. As paredes do salão, onde foi servido coquetel e jantar, tem uma iluminação aconchegante, que de vermelho, se transforma em azul e violeta.

Salmão ou Filet Mignon acompanhavam pratos deliciosos. Um deles era com figo seco e outro agridoce. Ainda sinto salivar quando lembro. As mesas redondas onde nove pessoas podiam se reunir, eram espaçosas e adequadas ao tamanho do salão.

Já frequentei muitos casamentos glamorosos, mas confesso que este estava particularmente perfeito. Tudo pensado e escolhido com atenção e sensibilidade.

Um aparador servia de suporte para álbum com fotos dos noivos, onde havia espaço para escolher uma caneta colorida e deixar seu depoimento ou declaração. Na parede acima do aparador, uma foto enorme dos meninos apaixonados.

Logo a frente um vaso enorme abrigava uma arvore com galhos secos, onde poderíamos escrever recados para os noivos e pendurar nos galhos.

A mesa que abrigou a cerimônia se transformou numa linda mesa de doces. Elegi um com raspas de coco enroladinhos.

Na passagem para o fumódromo, um balcão onde serviam delicioso café.

Todos dançaram. O som do Dj foi muito animado.

De repente o som cessa e Carlos Augusto pede a presença das moças que querem se casar. Desta vez, somente desta vez não será jogado um buquê, mas dois amuletos para dar sorte aos dois futuros casamentos. Carlinhos de costas, um, dois e... joga um sapo de pano, e avisa que ao beijá-lo pode ser que se acreditar vire um príncipe e Darwin joga de pano também, um Santo Antônio. E a sorte esta lançada. Foi divertido.

A vida é uma festa. Basta dizer que o casamento começou as 20h30 e fui embora as 4h00 da madrugada. Não sem antes passar por aquela imensa mesa redonda na saída, repleta de bem casados, papeis verdes com listras douradas representavam a esperança.

Tudo perfeito, harmonioso e de extremo bom gosto. Que sejam felizes para sempre.

 

Carlinhos casamento 1

Flavio Bassani

Eu te conheço? Flávio Bassani perguntou através do facebook.
Uma pergunta simples como essa me fez viajar pelo universo artístico de Flávio Bassani.
Primeiro umas gravuras em xilo me chamaram a atenção no facebook. Interessantes, instigaram meu olhar e me fizeram buscar mais obras. Encontrei o site do artista e só consegui fechar o site depois de ter visto todas as fotografias de suas obras.
Sou da opinião simples que não importa o suporte, não importa a técnica se não houver a criatividade, o bom senso e harmonia.
Esse tripé Flávio Bassani possui sobrando e brincando. Toda sua obra tem consistência e tempo certo.
Desenvolve e realiza sua arte perfeita no “time” certo.
A meu ver arte não tem receita e não precisa bula. Não necessita tão pouco saber por que veio... A que veio e para que veio. Arte é. Simples assim. Arte é... para ser olhada, sentida, absorvida.
Se houver a necessidade de explicar de onde vem e porque o artista fez assim cozido ou assado deixou de ser pura aos olhos do espectador. Passa a ser influenciada.
Ah... Por isso ele fez assim ou daquela outra forma... Agora entendi. Pronto, arte não tem que ser explicada.
Um dia desses alguém me disse: - Agora que me explicaram essa instalação contemporânea estou entendendo o que o artista quis dizer e continuo a não gostar da obra. Estou errado?
Respondi: - Não. A meu ver arte existe para ser vista, sentida, escutada, experenciada. Não é porque rotularam de arte que preciso apreciar. Gostar é uma questão individual.

 



Di Bonetti Cronica

Desde que eu era muito pequena, não me lembro de ter gostado tanto de um "DIA DA CRIANÇA".
E nem foi preciso presentes ou doces. Foi melhor que isso.
Alguém adulto começou uma simples brincadeira e alterou sua foto de perfil no Facebook colocando uma foto P&B da infância.
Escrevi no meu Facebook: "E VIVA o dia das crianças! Quero ver foto de todos aqui! Vamos lá gente, recordar quem continua impregnado em nós".
Um gostou da ideia e postou também sua foto quando criança. Pronto, um rastilho de pólvora se instalou na rede.
Todo mundo remexendo o baú de fotos antigas para buscar um mínimo registro que fosse daquele tempo em que as fotografias ainda não tinham cor.
Mas esse gesto não é algo tão simplista assim, é mais profundo do que ousamos imaginar, pois, nessa busca esteve envolvido um resgate de muitas outras lembranças. Ninguém tinha essas fotinhos separadas. Então o garimpo se transformou em retorno ao passado.
E a criatividade se fez presente. Colocaram perfil com espermatozoide, bichos e até jovens se tornando velhos da quinta idade. Tudo é válido. Pois, isso nos faz pensar e repensar. Mas foi uma ótima oportunidade. Parar um pouco no tempo e retroceder aos momentos em que éramos muito mais felizes e não tínhamos consciência.
Mas, o que também serve de alerta é que esse gesto aproximou a todos os "amigos" da rede. Nunca antes estive tão atenta a tantos perfis. Uma delícia ver tanta inteiração num só gesto. Um pequeno ato delicado que resgata, aflora, recupera, emerge a criança que existe dentro de nós.
Como diz o poeta Paulo Bomfim: "Um mosaico de encontros e revelações forma aquilo que somos" e mais: "Os homens serão tão iguais que um dia terão alma coletiva".
Acredito que estamos nesse momento de comunhão. Estamos pensando, sentindo, agindo e compartilhando em harmonia não somente nossas fotos, mas nossa identificação e essa comunhão nos trás uma proximidade afetiva que nos torna uma grande família.
E quem ainda não mudou seu perfil, ainda existe tempo, pois o mês de outubro todinho será dedicado a esse resgate do seu e do meu "DIA DA CRIANÇA".

 



Acredito que quando um escritor serve-se da ficção para construir um livro, por exemplo, romance, terror, policial ou infantil sua viagem solitária não tem dependências com o concretismo e a preocupação de deturpação dos escritos.
Sua imaginação pode levá-lo por caminhos abstratos que, transmitam as cores quentes de uma estrada longa, ladeada de Ipês amarelos, contaminando as pupilas pela beleza e que, num dia quente de verão, a sombra de tantas árvores faz cobertura ao espírito e refresca a alma, ou, num atalho do pensamento transformar uma noite fria de neblina em preto e branco onde o coração exalta o aflito leitor que sem sadismo, corre as páginas no silêncio da madrugada, mas no inconsciente, tem a certeza de estar ouvindo no mais alto som a 5ª Sínfonia.
Oscila o corpo e vibra o fôlego para que a linda protagonista consiga em seus passos largos, protegida pelo negro casaco com capuz que esconde seu rosto, deixando a mostra os olhos de terror pela adrenalina do medo, chegar viva ao seu destino.
Sendo um filósofo, a primeira imagem me remete a Rodin e a plasticidade exuberante daquele bronze: “O pensador”. O retrato exato do homem e seus questionamentos, da busca de respostas existenciais, da verdade flexível que deveria ser absoluta, do conhecimento inesgotável, a procura dos argumentos que levem a tornar seu discurso convincente sobre a ética e a moral. O amadurecimento que faça com que contribua para entender e tornar o humano menos irracional.
Reconheço que uma enorme porcentagem de comuns mortais foram ou serão um dia “pseudo” filósofos de seus próprios amadurecimentos. A diferença está na busca e na escrita perpétua que nos deixam os estudiosos, possibilitando ao outro o acesso a pensamentos que só acrescentam positivamente para nos tornar indivíduos melhores.
Agora, quando penso na “poesia” dos grandes abençoados pelo dom maior de transformar em versos, as belezas vividas pelo amor, pelo cotidiano, percalços, mágoas, sofrimentos e perdas, submetem-me a dizer que os verdadeiros “Poetas são anjos disfarçados de humanos”.
A poesia escrita por aquele que nasce poeta é a música dos olhos. Somos tocados pela mesma emoção.
O maior desafio da humanidade é montar o “quebra cabeça” da memória de um povo, a busca das informações que de forma imparcial e sem deturpações não transformem em lenda verdades que passam por metamorfoses, em pesquisas mal efetuadas e repetidas por informações incorretas e que vão se perpetuando de forma irreal na literatura.
Hitler disse: “Uma mentira dita cem vezes, torna-se verdade um dia”. Imagina quando publicada. E os erros crassos da história vão se repetindo na literatura, até que um dia torna-se verdade absoluta.
Por isso penso que: Os que fazem parte da história hoje deveriam pensar em deixar seus registros dos acontecimentos que estão vivendo “in loco” para que, os pesquisadores do futuro consigam resgatar a memória de uma pessoa, rua, bairro, cidade, país, o mais próximo da realidade.
Tenho particularmente vivenciado há seis anos o meu “quebra-cabeça” de pesquisa da memória paulistana, mas, que ainda necessita do encaixe perfeito de algumas peças espalhadas pelos caminhos já percorridos. Sinto-me guiada de alguma forma por uma estranha intuição e cercada de pessoas capacitadas que aponto como “almas generosas” e com certeza somam.
Escrever sobre a capital paulistana e nela inserida um dos intelectuais mais respeitados por suas contribuições históricas não foi tão complicado, pois consegui me debruçar por cinco anos nos guardados da sua filha Nazareth Thiollier, que aos 90 anos me guia de outro plano.
René Thiollier, onde estiver, muito obrigada por deixar tantos registros como fio condutor dessa sua passagem pela capital paulista, onde sempre penso em você como nosso “Forrest Gump brasileiro”, mas que depois do lançamento do livro, será perpetuado o esforço da sua amada filha e reuniremos numa só lembrança e como disse o poeta Paulo Bomfim “Num só coração” todo empenho e amor que, René Thiollier, dedicou a São Paulo.

 



nuvens flocos de ilusao 4

Pode parecer bobagem que alguém que tenha uma vida tão agitada na desatinada Paulicéia, que não seja selenita, mas que habita de corpo e alma o mundo das artes, abraçando causas aparentemente impossíveis, projetos ousados, que tem vontade de beber até se embriagar de cultura e saber, que fica em estado de graça por ter o privilégio de conviver com aqueles que os anos envergam pelo peso de tanto conhecimento, encontre trabalhando aos sábados, domingos, feriados e carnavais, um tempinho para olhar... As nuvens
Observadora atenta das “naturezas mortas”, delineadas com tanto primor pelos pincéis de Pedro Alexandrino, das cores expressadas com maestria pela “Mãe do Modernismo” brasileiro, Anita Malfatti, nada me causa mais admiração na “natureza mutante” do que as nuvens. Seus efeitos físicos e ilusórios, que em formações únicas, não se repetem , são simplesmente... Flocos de ilusões.
Nasci fotógrafa, herança paterna. Sou observadora legítima.
Privilegiada por principalmente observar as nuvens. Sempre as fotografo e me encanto com as carregadas que precedem as chuvas.
Os efeitos ilusórios são rápidos, surpreendentes e imprevisíveis. Em constante transformação, harmonia e exuberância as nuvens proporcionam uma poética visual magica.
Surgem as mais diversas figuras: anjos, monstros, animais, pessoas, contornos e rostos. Não consigo olhar para as formações dos flocos de ilusões como imagens em formações abstratas.
Esse olhar as nuvens de baixo para cima só é mais fascinante e entorpecente quando o avião esta acima delas. O fôlego retesa com a beleza e a sensação extraordinária de paz. O paraíso poderia ter essa formatação. Seria perfeito.
Nuvens brancas, flocos que se unem, se separam e se diluem em minutos. Mudanças bruscas, alterações velozes muitas vezes se transformam impetuosamente no cinza pesado onde em uma cerimônia, quase ritual gritam trovões e descarregam suas dores em raios. Nuvens que se iluminam e buscam emprestada a exuberância dos raios solares. Mesmo na tempestade, vento forte, onde árvores parecem brincar numa dança frenética sem rumo, aguardando o alimento para sobrevivência, me fascino e quero registrar essa revolução extraordinária que as nuvens provocam. Nuvens que se desfazem após a chuva densa, refrescando nosso íntimo, procurando lavar da terra e banir do mundo as maldades que muitos cometem com a “mãe natureza”.
Amo a chuva, suas nuvens densas, carregadas, sombrias, mas com efeitos plásticos de pura beleza. Não me intimido ao estremecer os trovões. Impassível, aguardo o ansioso momento sublime das descargas elétricas, tão perigosas, mas sedutoras de encanto e fascínio.
Nuvens... Flocos de ilusões. Jamais conseguirei viver sem olhar-te e viajar em suas gloriosas formações, verdadeiras criações artísticas.

 

vo rita

 

Avó... Doce palavra caramelada...
Sinto o cheiro da manga espada no quintal da saudade
Sinto saudades da rede na varanda embalando nossa infância
Ouço o arrastar dos chinelos nos pés pequenos da Avó Rita
Que saudade...
O fogão de pó de serra aquecia os corações
A batata frita com gosto de recordações
Mistérios nas gavetas
Descobertas nos baús
Surpresas nos quartinhos
Pote de balas sempre cheio de carinhosos mimos ou pote de mimo cheio de balas...
Casarão de Vó, natais de minha infância...
Quantas saudades, quantas recordações boas, quanto tempo...
Ah Avó Rita... Como eu te amei.

O celular toca as 10:55 daquela manhã acabrunhada pelo sol tímido.
Uma voz firme e sorridente fala:
- Um beijo pelo dia de hoje!
Respondo feliz, um beijo para você também. Somos eternas crianças.
Presente melhor não poderia receber no dia 12 de outubro de 2010...
Um beijo do Príncipe dos poetas brasileiro, meu querido amigo, Paulo Bomfim.
Príncipe poeta... Com a delicadeza de gestos sutis e a sensibilidade pertencente aos escolhidos especiais você semeia divinamente união.
Por onde passa constrói pontes e mais pontes de harmonias e considerações. Faz com que os iguais se atraiam e se complementem.
Eterna criança de 84 primaveras arranca gargalhada com suas “tiradinhas” sagazes e brinca com as palavras transformando em lindos versos os reversos do dia a dia.

Feliz dia poeta!

 Segunda feira, 23h30min, saímos do escritório na Vila Mariana, capital paulista, rumo ao Pão de Açúcar da Ana Rosa que funciona 24 horas e que recebe a minha visita nas madrugadas pelo menos três vezes por semana.
Quando vou mais tarde, às vezes a 1 ou 2 horas da madrugada é mais tranqüilo, menos gente, embora só um caixa funcione para atendimento.
As filas dos cinco caixas estavam enormes, excluindo a preferencial, escolhi a fila com menos carrinhos.
Na minha frente, uma moça bonita, morena, cabelos presos num coque, vestido azul cobalto, longo, mas com alças mostravam seus ombros magros e sua pele bronzeada pela natureza. Seu rosto sem marcas do tempo, mas semblante de preocupação. Sem sorriso, sem palavras, olhar solto, aguardava o casal masculino, que estavam na sua frente, sarados e tatuados, músculos na medida exata, camisetas coladas e bermudas de grife em pernas torneadas que finalizavam em chinelos havaianas escolhidos a dedo para requintar o casual. As compras eram poucas, mas a demora foi para colocarem créditos nos celulares.
Finalmente, a moça com o carrinho cheio começa a descarregar no balcão suas compras, ouço a pergunta: - Vocês entregam em casa? Hoje? Tá, então pode ser amanhã após as 08h30min da manhã, mas não coloque ainda nas caixas que quero escolher algumas coisas para levar na minha sacola retornável. Isso mesmo, as sacolas bonitas e coloridas, politicamente corretas, que o próprio Pão de açúcar vende.
Sem ser antipática, nem pedante, a moça se mantinha com a fisionomia fechada, como se o cansaço do dia exaustivo de trabalho, a dificultasse articular quaisquer palavras mais que necessárias. Terminada a passagem do código de barra dos produtos, começa o drama, o que levar? Alguns produtos de geladeira não podem esperar até amanhã, coloca vários itens, levanta a sacola e sente o peso. Deve ter pensado – Humm, a caminhada é longa, vou me cansar muito – tira, põe, vê o peso novamente e se decide que agora está certo.
Além da sacola dos produtos, em seus ombros uma linda bolsa vermelha, não de marca, mas que esta na moda, “dos exageros”, pelo tamanho. Moda essa que aboli há muito tempo, pois muitas são de couro ou confeccionadas com produtos que só a bolsa pesa uns dois quilos. Imagine que a bolsa vermelha estava muito cheia. Do que? Imagino que além das tradicionais manias femininas, pente, escova, maquiagem, bolsinha com utilidades como lixa de unha, vários batons, cortador de unha, tesourinha, alfinetes, presilha de cabelo, carteira de documentos, perfume, guarda chuva portátil, caneta, óculos de sol, enfim, muitos apetrechos que às vezes passam meses na bolsa sem serem percebidos, mas estão lá, pois um dia pode ser útil. Pelo volume da bolsa, provavelmente deveria ter uma blusa, ou muda de roupa que a estufava.
O restante das compras foi armazenado em duas caixas de papelões, e colocado num carrinho que ficara aguardando a entrega na manhã seguinte. A caixa chama a supervisora para que anote o endereço da moça. Quando ouço o nome da Rua Napoleão de Barros, começa "o meu drama".
Conheço essa rua, mas não me lembrava exatamente onde. Sei que não é longe. Coloco-me no lugar da moça e me lembrei do meu tempo de solteira, sem carro, e sem dinheiro para um taxi, na mesma situação com muitas sacolas indo para casa carregando o mundo nas costas. Nunca pedia para entregar, sempre achava que o peso não seria tanto. Chegava à casa acabada, como se surra houvesse tomado.
Pelo horário, imagino que ela deva estar voltando do trabalho. Será que devo oferecer uma carona para ela? Mas, estou tão cansada também. Quero chegar logo em casa. Penso novamente de que não posso querer ficar me envolvendo nos problemas do mundo. Tenho que parar com essa mania. Cada qual tem seus problemas. Eu nem conheço essa moça. Isso é um problema dela, não meu. Imagina se eu ofereço uma carona e esse endereço for bem mais longe do que imaginei.
O marido e a Pitty Maria com 17 anos, nossa poodle velhinha e esclerosada, surda e cega, que tem às vezes crises de síndrome do pânico, esperavam-me no carro.
Pago minhas compras, carrego minhas duas sacolinhas tradicionais e caminho pensativa para o carro. Paro na janela do motorista e pergunto ao Paulo: - Onde fica a Rua Napoleão de Barros? – Ele me diz que é uma rua paralela a nossa rua de casa. Explico que dentro do mercado esta uma moça a pé com as compras que serão entregues somente no dia seguinte e com uma sacola pesada para levar na mão. O que você acha de darmos uma carona para ela? Ele responde: - Você quem sabe. Por mim tudo bem.
Eu olho e não vejo a moça, fico na dúvida, volto e ofereço carona? Ou vou para casa já? Mas o que me custa? Vou. Não vou, e acabei voltando para dentro do mercado.
A moça estava preenchendo no balcão uma ficha de inscrição para “Cliente Mais”. Aproximo-me e pergunto: - Onde você mora na Napoleão? Ela responde: - Perto da Sena Madureira. Digo que fica próximo da minha casa e se ela gostaria de uma carona levando suas compras. Ela abre um lindo sorriso e um brilho fascina seus lindos olhos castanhos.
Colocamos suas caixas e sacolas no porta malas. Abro a porta traseira e antes que ela sentasse, eu coloco as duas mãos abertas em torno da boca e digo baixinho: - Ainda não fiz minha boa ação de hoje. Pego a Pitty Maria para levar no meu colo na frente, os latidos cessam depois de alguns minutos e pergunto aquela moça morena e agora de fisionomia simpática, qual era seu nome. Carolina. Respondo, que legal, tenho uma sobrinha com esse nome. Sou a Di e ele é o Paulo. A Pitty Maria começa a querer cheirá-la, e ela diz que eu não me preocupasse, pois ela tinha um Pit Bull e um gatinho e os dois se entendiam maravilhosamente bem. Isso porque o cachorro nunca se deu conta que ele era um Pit Bull. Tudo depende da forma que são criados, diz ela.
Para nossa surpresa ela morava numa casa a três quadras de nosso endereço. Descarregamos suas compras na porta de sua casa e um rapaz, o marido, veio ajudá-la. Ela agradeceu, disse que graças a nós poderia já deixar o feijão de molho para o dia seguinte. Deu-me um beijo no rosto de agradecimento e eu lhe disse ao pé do ouvido: - Retribua, faça uma boa ação a alguém que necessite. Ela responde que o faria com certeza.
Entro no carro me sentindo aliviada por não ter sido egoísta e insensível a uma situação tão fácil de resolver pensando em quantos gestos pequenos os seres humanos deixam de praticar por pura insensibilidade de não prestar atenção ao seu redor, mesmo aos estranhos. Muitos entram num supermercado, compram, ficam numa fila enorme por vários minutos, passam pelo caixa e se perguntados não sabem descrever absolutamente nada sobre as pessoas que estavam nas filas, ou lembrar qual o caixa que lhe atendeu.
Está presente naquele local somente sua carcaça.
O ver, observar, sentir, ser educado e generoso com seu próximo, mesmo que seja um estranho, isso não existe.
Olham, mas não enxergam. São os cegos de alma.
E quando estacionamos em casa, dando uma desviada de alguns minutos a mais em nosso trajeto digo ao Paulo: - Doeu? Ele responde. Claro que não.
Moral da vida: - É tão fácil fazer um gesto que transforma o dia do outro mais leve e que nós faz mais humanos.

Cheguei ao escritório nesta segunda feira, as 10h00 horas da manhã e ao ligar meu computador o primeiro pensamento foi - tenho que ir ao banco Itaú sacar o dinheiro para depositar no Bradesco para minha secretária de faxinas semanais - que prefere depósitos mensais, pois sempre diz que dinheiro na mão é vendaval.

so longuinho 2Abro minha caixa de correio virtual e inicio a tarefa diária - apagar SPAM. Para quem não usa e-mail, são as propagandas que não solicitamos ou os benditos lixos eletrônicos aos quais não temos como impedir que cheguem até nós, principalmente porque, uma grande maioria de internautas, mergulhadores no mundo virtual, recebe alguma mensagem bonitinha de auto-ajuda, imagens fantásticas, piadinhas e filminhos que dizem valer a pena ver, e alguns valem mesmo, mas entopem nossa caixa postal, pois no momento em que vão enviar para todos de sua lista, desconhecem a ética da correspondência virtual, enviam com cópia aberta e todo mundo tem acesso ao endereço de e-mail de todo mundo. Um simples cuidado de enviar os endereços dos amigos com cópia oculta diminuiria e muito o acesso dos indesejáveis a nosso e-mail.

Na seqüência respondo os e-mails prioritários. Olho no relógio e passa do meio dia. Ai meu Deus, agora não adianta ir para o banco, pois minha gerente esta em horário de almoço e preciso aproveitar a viagem e trocar algumas idéias com ela. Sei que voltará por volta das 13h00 horas. Meia hora depois, uma amiga toca a companhia, só havia passado para deixar um beijo. Disse que estava indo para o bairro do Paraíso a pé. Eu pensei comigo, nesse sol? Nada disso, eu te deixo lá de carro, pois estou indo ao Banco. Passo pelos dois bancos, mas era desumano fazê-la esperar no carro com o calor infernal. Levo-a primeiro, voltando ao primeiro banco para sacar o dinheiro. A gerente me recebe muito bem, embora esteja cuidando há pouco tempo da minha conta e da empresa. Tornamos-nos próximas a ponto de trocarmos receitas e endereços de médicos.

Saio rapidamente, entro no carro e me dirijo ao segundo banco. Desta vez deixo o carro no estacionamento, pois nessa avenida é proibido estacionar. Sempre paro próximo perto da guarita que fica mais fácil para sair do estacionamento do banco, visualizo uma vaga logo de entrada, mas, nem sei por que, segui em frente e deixei o carro bem mais longe. Faço o trajeto todo de volta a pé, pois esse Bradesco mantém fechada a porta do estacionamento que permite a entrada na agência, talvez por facilitar aos malandros, roubos e furtos. Passo pela guarita e o senhor de cabelos brancos faz um breve comentário sobre o calor e a chuva.

Entro na área externa da agência e observo duas pessoas nos caixas de depósitos auto-atendimento, cinco caixas destinados a saque, mas somente três pessoas os mantêm ocupados. Um moço Bradesco ouve o apelo de uma moça e se dispõe a ajudá-la com um pagamento. Dois balcões altos no centro possibilitam preencher os envelopes de depósitos. Dirijo-me ao segundo, mais próximo dos caixas de depósitos e vazio. Preencho meu envelope, tiro da carteira o dinheiro e quando fecho o envelope com o lacre, me dirijo ao caixa vazio de deposito quando ouço uma voz masculina dizer: -“Perdi minha carteira”. Quem já perdeu sua carteira sabe a sensação de impotência e de frustração que abate o coração.

Estava prestes a digitar os dados necessários na máquina quando me viro e vejo um senhor de meia idade e de baixa estatura, muito calvo e com óculos pretos, próprios dos míopes, a fisionomia aflita. Ele repete: perdi minha carteira aqui, não faz muito tempo, se aproxima do balcão onde eu acabara de preencher o deposito e bate a mão aberta com força no mármore. Não foi um gesto de raiva, foi um desabafo de desespero. Todos estáticos em seus lugares observam a cena olhando para os balcões e caixa em busca da carteira.

Não me contive assistindo aquela cena e pensei – COITADO, São Longuinho, POR FAVOR, ajude esse senhor a encontrar sua carteira (nem tive tempo de pensar nos três pulinhos) o senhor veio na minha direção e disse que havia sacado dinheiro no caixa do lado onde eu estava.

Perguntei-lhe: - quando o senhor entrou aqui veio direto para esse caixa? Ele responde que não e aponta para o balcão onde estive há instantes. Coloca as mãos na cabeça que deslizam pela nuca num gesto de resignação. É como se houvesse uma pausa na cena de um filme, todos parados olhando para a vítima e somente ele se movimenta em direção à porta e lá pelo quarto passo eu o chamo:

Senhor! Aponto com meu dedo indicador... Não é a sua carteira ali no chão?

Era sim, uma carteira desgastada pelo tempo e uso, a cor era bege, que passava despercebida e se confundia um pouco com o tipo de mármore do chão. Estava caída justamente ao lado do balcão que ele foi antes de sacar dinheiro no caixa.

A expressão de alívio experimentada pelo perdedor foi tão gratificante que não me contive e falei em voz alta:
- Graças a Deus!
O senhor, sorrindo se dirigiu ao meu encontro e falou:
- Moça! Muito obrigado e que os anjos te protejam sempre.

Voltei ao escritório imaginando: destino? Coincidências de horários? Será que as 11h00 horas eu teria passado pelo mesmo acontecimento? Ou quem me atendeu prontamente foi São Longuinho?

Pode ser, pois São Longuinho nunca falhou em todos os meus pedidos. Basta citar um exemplo acontecido há mais ou menos uns 14 anos quando meu telefone de casa toca à uma hora da madrugada e uma amiga me solicitava desesperadamente que pedisse a São Longuinho para que o namorado achasse a carteira. Foram jantar fora e quando ele a deixou em casa deu por falta da carteira. Fizeram o trajeto de volta, perguntaram no restaurante e nada. Minha reação foi de riso e perguntei a ela porque não pedia diretamente? Ela afirmava seriamente que sempre quando eu pedia era atendida. E que ele estava arrasado, pois a carteira estava com cheques pré-datados de vendas de obras, dólares e cartões de crédito.

O namorado, que eu havia apresentado a ela, era um artista plástico, meu amigo de longa data, pessoa íntegra e de bom coração que convivi por muitos anos. Infelizmente faleceu em 2006. Concordei em apelar ao Santo que é conhecido por encontrar coisas perdidas.

No dia seguinte, logo cedo, ele voltou ao restaurante e refez o trajeto de onde estacionou o carro até o restaurante.

E por mais que possa parecer estranho, a carteira estava intacta caída no meio fio. Ninguém viu, ninguem pegou.

Meu querido “bendito” São Longuinho. Sem pensar e sem me preocupar onde me encontrava, dei os três pulinhos agradecendo por ter atendido meu pedido mais uma vez.

CAIXA CULTURAL foto

Anita Catarina Malfatti nasceu e morreu em São Paulo com 75 anos. Nasceu em 1889 e faleceu em 1964.

Ela é considerada a "Mãe" do modernismo brasileiro por ter sido a pintora que desencadeou todo o processo de mudança nas artes no Brasil. Pioneira em romper com os paradigmas estéticos de uma época.

A primeira vez que foi usado o termo de "Mãe" modernista, foi em 2004, quando fiz a Curadoria das obras de Anita Malfatti na CAIXA CULTURAL homenageando São Paulo em seus 450 anos, na inauguração do restauro do quadrilátero da Praça da Sé.

A mostra teve o nome "REFERENCIAL ANITA MALFATTI" e foram expostas 87 obras divididas em duas galerias no Centro Cultural todo reformado.

Entrevistada pela TV Cultura eu disse que se o "Pai" do modernismo brasileiro foi Mário de Andrade, com certeza a "Mãe" foi Anita Malfatti que revolucionou os conceitos sobre a cor e a forma.

Creio que o Brasil deve-lhe reverências pela ousadia de permitir-se ter participado no começo de XX, de um processo embrionário vigente revolucionando os moldes formatados como politicamente corretos nas artes, musica e literatura, trazendo para nós brasileiros a chama da "Era do Modernismo".

Anita Malfatti foi beber na fonte, na Europa e nos EUA, onde conheceu e se tornou colega admirada dos grandes nomes de mestres modernos como Foujita, Picasso, Matísse, Derain e Legér.

Anita foi uma artista completa, mas incompreendida e mal interpretada pelas críticas distorcidas de sua época. Sem dúvida, Anita Malfatti é a nossa maior e legítima representante da Arte Moderna brasileira, portanto a "Mãe do modernismo brasileiro".

 

Segundo o filólogo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, soberba é o sentimento negativo caracterizado pela pretensão de superioridade sobre as demais pessoas, levando a manifestações ostensivas de arrogância, por vezes sem fundamento algum em fatos ou variáveis reais. O soberbo tende a se mostrar, pois está enamorado com a própria existência. O soberbo se sente auto-realizado querendo mostrar-se para os outros a todo preço, querendo despertar a inveja e a admiração dos outros, como se isso elevasse sua estima ao máximo e lhe trouxesse prazer.
Grande Aurélio que conseguiu definir de forma brilhante o que é soberba.
Gosto da palavra, do som... so-ber-ba... Até poderia ser o nome de uma sobremesa. Na minha imaginação algo parecido com torta de limão que doce e azedo verte em água na boca.
Mas, soberba, arrogância, presunção, infelizmente é um mal que contamina pessoas de qualquer nível, berço ou classe social.
Pessoas com dinheiro, berço e educação, em geral não são soberbos, são naturais dentro de seu contexto. Difícil é nos deparar com a combinação daquele humilde que ascendeu socialmente, não teve berço esplêndido e com dinheiro acredita que tudo pode, se colocando acima do bem ou do mal. Ou, bem pior é aquele que não tem dinheiro, não tem poder, não nasceu em berço de ouro e acredita que “reinventou a roda”, ou que “redescobriu o Brasil”. Essa soberba é a mais degradante. Faz pena, causa compaixão.
Quando na vida nos deparamos com alguém com síndrome da soberba, o melhor a fazer é ignorar e manter distância. Não vale discussão, não vale gastar tempo e palavras, pois não existe cura. Mesmo porque o soberbo não gosta de se misturar com os quais não reconhece como iguais.
A conclusão que tiramos é que as pessoas com síndrome da soberba, que se acreditam diferentes ou superiores ás outras, são coitadas criaturas que tem na verdade uma baixa auto-estima e por isso tem essa necessidade de convencer a si próprios e de provar ao mundo que são “melhores”.
Por isso, quem é simplesmente é! Não precisa provar nada para ninguém e o reconhecimento acontece naturalmente.