3 Dezembro 2021

 Segunda feira, 23h30min, saímos do escritório na Vila Mariana, capital paulista, rumo ao Pão de Açúcar da Ana Rosa que funciona 24 horas e que recebe a minha visita nas madrugadas pelo menos três vezes por semana.
Quando vou mais tarde, às vezes a 1 ou 2 horas da madrugada é mais tranqüilo, menos gente, embora só um caixa funcione para atendimento.
As filas dos cinco caixas estavam enormes, excluindo a preferencial, escolhi a fila com menos carrinhos.
Na minha frente, uma moça bonita, morena, cabelos presos num coque, vestido azul cobalto, longo, mas com alças mostravam seus ombros magros e sua pele bronzeada pela natureza. Seu rosto sem marcas do tempo, mas semblante de preocupação. Sem sorriso, sem palavras, olhar solto, aguardava o casal masculino, que estavam na sua frente, sarados e tatuados, músculos na medida exata, camisetas coladas e bermudas de grife em pernas torneadas que finalizavam em chinelos havaianas escolhidos a dedo para requintar o casual. As compras eram poucas, mas a demora foi para colocarem créditos nos celulares.
Finalmente, a moça com o carrinho cheio começa a descarregar no balcão suas compras, ouço a pergunta: - Vocês entregam em casa? Hoje? Tá, então pode ser amanhã após as 08h30min da manhã, mas não coloque ainda nas caixas que quero escolher algumas coisas para levar na minha sacola retornável. Isso mesmo, as sacolas bonitas e coloridas, politicamente corretas, que o próprio Pão de açúcar vende.
Sem ser antipática, nem pedante, a moça se mantinha com a fisionomia fechada, como se o cansaço do dia exaustivo de trabalho, a dificultasse articular quaisquer palavras mais que necessárias. Terminada a passagem do código de barra dos produtos, começa o drama, o que levar? Alguns produtos de geladeira não podem esperar até amanhã, coloca vários itens, levanta a sacola e sente o peso. Deve ter pensado – Humm, a caminhada é longa, vou me cansar muito – tira, põe, vê o peso novamente e se decide que agora está certo.
Além da sacola dos produtos, em seus ombros uma linda bolsa vermelha, não de marca, mas que esta na moda, “dos exageros”, pelo tamanho. Moda essa que aboli há muito tempo, pois muitas são de couro ou confeccionadas com produtos que só a bolsa pesa uns dois quilos. Imagine que a bolsa vermelha estava muito cheia. Do que? Imagino que além das tradicionais manias femininas, pente, escova, maquiagem, bolsinha com utilidades como lixa de unha, vários batons, cortador de unha, tesourinha, alfinetes, presilha de cabelo, carteira de documentos, perfume, guarda chuva portátil, caneta, óculos de sol, enfim, muitos apetrechos que às vezes passam meses na bolsa sem serem percebidos, mas estão lá, pois um dia pode ser útil. Pelo volume da bolsa, provavelmente deveria ter uma blusa, ou muda de roupa que a estufava.
O restante das compras foi armazenado em duas caixas de papelões, e colocado num carrinho que ficara aguardando a entrega na manhã seguinte. A caixa chama a supervisora para que anote o endereço da moça. Quando ouço o nome da Rua Napoleão de Barros, começa "o meu drama".
Conheço essa rua, mas não me lembrava exatamente onde. Sei que não é longe. Coloco-me no lugar da moça e me lembrei do meu tempo de solteira, sem carro, e sem dinheiro para um taxi, na mesma situação com muitas sacolas indo para casa carregando o mundo nas costas. Nunca pedia para entregar, sempre achava que o peso não seria tanto. Chegava à casa acabada, como se surra houvesse tomado.
Pelo horário, imagino que ela deva estar voltando do trabalho. Será que devo oferecer uma carona para ela? Mas, estou tão cansada também. Quero chegar logo em casa. Penso novamente de que não posso querer ficar me envolvendo nos problemas do mundo. Tenho que parar com essa mania. Cada qual tem seus problemas. Eu nem conheço essa moça. Isso é um problema dela, não meu. Imagina se eu ofereço uma carona e esse endereço for bem mais longe do que imaginei.
O marido e a Pitty Maria com 17 anos, nossa poodle velhinha e esclerosada, surda e cega, que tem às vezes crises de síndrome do pânico, esperavam-me no carro.
Pago minhas compras, carrego minhas duas sacolinhas tradicionais e caminho pensativa para o carro. Paro na janela do motorista e pergunto ao Paulo: - Onde fica a Rua Napoleão de Barros? – Ele me diz que é uma rua paralela a nossa rua de casa. Explico que dentro do mercado esta uma moça a pé com as compras que serão entregues somente no dia seguinte e com uma sacola pesada para levar na mão. O que você acha de darmos uma carona para ela? Ele responde: - Você quem sabe. Por mim tudo bem.
Eu olho e não vejo a moça, fico na dúvida, volto e ofereço carona? Ou vou para casa já? Mas o que me custa? Vou. Não vou, e acabei voltando para dentro do mercado.
A moça estava preenchendo no balcão uma ficha de inscrição para “Cliente Mais”. Aproximo-me e pergunto: - Onde você mora na Napoleão? Ela responde: - Perto da Sena Madureira. Digo que fica próximo da minha casa e se ela gostaria de uma carona levando suas compras. Ela abre um lindo sorriso e um brilho fascina seus lindos olhos castanhos.
Colocamos suas caixas e sacolas no porta malas. Abro a porta traseira e antes que ela sentasse, eu coloco as duas mãos abertas em torno da boca e digo baixinho: - Ainda não fiz minha boa ação de hoje. Pego a Pitty Maria para levar no meu colo na frente, os latidos cessam depois de alguns minutos e pergunto aquela moça morena e agora de fisionomia simpática, qual era seu nome. Carolina. Respondo, que legal, tenho uma sobrinha com esse nome. Sou a Di e ele é o Paulo. A Pitty Maria começa a querer cheirá-la, e ela diz que eu não me preocupasse, pois ela tinha um Pit Bull e um gatinho e os dois se entendiam maravilhosamente bem. Isso porque o cachorro nunca se deu conta que ele era um Pit Bull. Tudo depende da forma que são criados, diz ela.
Para nossa surpresa ela morava numa casa a três quadras de nosso endereço. Descarregamos suas compras na porta de sua casa e um rapaz, o marido, veio ajudá-la. Ela agradeceu, disse que graças a nós poderia já deixar o feijão de molho para o dia seguinte. Deu-me um beijo no rosto de agradecimento e eu lhe disse ao pé do ouvido: - Retribua, faça uma boa ação a alguém que necessite. Ela responde que o faria com certeza.
Entro no carro me sentindo aliviada por não ter sido egoísta e insensível a uma situação tão fácil de resolver pensando em quantos gestos pequenos os seres humanos deixam de praticar por pura insensibilidade de não prestar atenção ao seu redor, mesmo aos estranhos. Muitos entram num supermercado, compram, ficam numa fila enorme por vários minutos, passam pelo caixa e se perguntados não sabem descrever absolutamente nada sobre as pessoas que estavam nas filas, ou lembrar qual o caixa que lhe atendeu.
Está presente naquele local somente sua carcaça.
O ver, observar, sentir, ser educado e generoso com seu próximo, mesmo que seja um estranho, isso não existe.
Olham, mas não enxergam. São os cegos de alma.
E quando estacionamos em casa, dando uma desviada de alguns minutos a mais em nosso trajeto digo ao Paulo: - Doeu? Ele responde. Claro que não.
Moral da vida: - É tão fácil fazer um gesto que transforma o dia do outro mais leve e que nós faz mais humanos.